uma bala perdida me alcançou, rasgando tudo ou quase tudo que vai da alma ao coração. levantei sem pedir socorro. olhei apenas para o espelho em frente, querendo explicações e precedentes. viver é indecente quando a violência está na dor que nos escolhe, nos atos escusos da vida: senhora das traições.

não quero pensar neste vil momento, no vento destruidor, na minha covardia diante dos acontecimentos. estou doente dos olhos. não consigo mais olhar dentro de mim sem chorar, sem dissecar a desnobreza de tudo, sem ver a da faca enterrada todo dia no meu peito.

problemas caem das gavetas, a porta emperra, um medo berra feito louco nos meus bolsos: não posso mais nada de agora em diante. só as distantes estrelas negras me aguardam. e enquanto eu não descubro mais nada, tento buscar a noite no céu da minha boca porém, girar essa chave que me trava e me fechou para balanço quase dói.
cordialmente não aceito mais conceitos, dúvidas ou coisas sem nome.
estou trancada dentro da minha esquisitice. quando o meu coração voltar a crescer, vou entender como é ser gente grande.
por enquanto vou ficar por aqui sendo ridícula, esperando que o mar torne-se poético novamente.

Karla bardanza

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deitou sem acender a luz, sem esconder os olhos, sem conseguir pensar direito. dentro do peito apenas medo e uma fé estranha e curta, apenas a certeza de que tudo poderia romper e ficar tão pior, tão intensamente absurdo e insano. pensou nos remédios, nos surtos, nos intrigantes momentos de felicidade,  mas aquilo também era tortura, tontura e devoção.

não perguntou mais nada a Deus. aceitou tudo e pronto. aceitou e seguiu em frente com raiva, se escondendo da vida porque a vida ria dela, fazendo bullying desavergonhadamente, ditando novos infames rótulos. resistiu como pode até cair para alto, até chegar no final da linha que costurava a alma ao coração. quando não pode mais, cedeu, abriu as mãos, mostrando as marcas e foi então que finalmente entendeu que ela ainda era gente, era força, era uma lágrima acesa.

karla bardanza


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Pensei que podia escrever quando a palavra ousasse, quando arrastava milhares de répteis e vomitava fogo para queimar propositalmente todos que pudessem ler as minhas artimanhas enjoadas. Pensei que podia deter a noite no meio dos dias e as coisas que já me danificaram o lado virgem da alma. Não consigo calar a boca da mente, as vontades obscenas, inclusive àquelas de ser poeta como se isso não fosse dom e disciplina. Talvez, algum dia, eu consiga chegar lá do outro lado de mim e ser um melhor algo, um eu mais sonoro e grandioso. Nunca alcancei a magnificência do outro. A grama parecia mais verde, mas era artificial. Preferir ser insignificantemente cheia de significâncias...Quase todas minhas. Agora, estou habitando a minha pele sem discordar das horas, sem querer a eternidade das coisas (im)possíveis, sem muitas neuras. Algumas nóias já me bastam. E é com o peito amuado e cheio de gratidão que enxergo sem muita luz que o sono é delicioso.O despertamento é coisa do tempo.



Karla Bardanza







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 Não quero pensar que hoje já é amanhã. Janeiro colocou um belo par de tênis e já deu a largada. Nem preciso dizer que ele passou a minha frente. Já começo a pensar que estou sem pique nenhum para acompanhá-lo. Resta-me uma única alternativa: correr atrás dele. Porém, este calor que esta fazendo abaixo da Linha do Equador é ultrajante; minha energia está diluindo todinha antes do meio-dia e evaporando junto com as minhas férias.

Uma coisa devo admitir: é maravilhoso essa coisa desamarrada das horas, esse nada na agenda, essa preguiça sem culpa. Começo a esquecer a minha missão de cidadã e sinto-me bem neste papel de fiscalizar as estrelas e pastorear as ovelhinhas ao dormir. Não tenho nem um pouquinho de pressa ao contá-las. A liberdade de deixar de sermos quem somos nas férias não tem preço. Nem o Visa paga isto. E olha que é bem legal.  

É, não há como acompanhar esse mocinho abusado chamado 2013 agora. Nem havia notado que os meus pés estavam para o alto. Estou tão cansadinha - ainda. Por que pressa? Nunca me senti tão bahiana na mina vida. Só falta mesmo alguém para me abanar porque eu já estou com os olhos colados apenas no meu umbigo. E isso ninguém pode fazer por mim.



Karla Bardanza

 Leseira- preguiça na Bahía


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E ela gosta tanto de você que me dói. Admito que é uma dorzinha ridícula. Porém, não há muito mais o que fazer além de sentir as nuvens pesando dentro de mim. Logo eu que sempre fui senhora dos céus. Você chegou e espalhou os meus grilos e até as pulgas que eu sempre cultivei alegremente atrás da orelha. Não foi difícil sentir o que ela sente e você consente com discrição e medo, com as mãos no rosto tipo o-que-será-que-essa-porra-vai-dar? Não vai dar em nada porque alguém já deve ter dado... tudo, é claro ...

Assisto o mundo, o mudo espetáculo das entrelinhas, as coisas que me deixam menor e quase mais sozinha. Nelson Rodrigues há de te perdoar. Você é um Nelsinho sem Curitiba para mim. Dalton Trevisan te explica É sempre intrigante não ver para onde você olha ou ver o que você faz um esforço danado para não olhar. E enquanto você nota as minhas flores, eu anoto o teu desespero manso com delicadeza. Na verdade vos digo, amigo: vá (de novo) e na fé. Faça mais uma vez o que você já está acostumado a fazer. Isso deve doer mas se dá prazer...Eu te entendo...Só não me peça respeito porque assim já é demais para alguém incorfomada como eu.

Observo com certo entorpecimento o que está explícito no escuro e implícito nas atitudes, nas altitudes acima do perdão e abaixo do umbigo. Não me renego, não te renego. Não é uma linda palavra quando a gente não tem muito a falar. Minha sabedoria de alcova me fez uma dama: nunca saio antes da hora certa e quando saio, saio esperta. Como morri e os meus bens são poucos e quase loucos, deixo-te apenas um: boa sorte. Todo resto não vale nada diante desse jogo partido ao meio no meio do dia ao meio-dia.



Karla Bardanza









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Essa insensatez é natural após às seis. O agora mancha camisas de batom e perfuma peles com memórias de flor e alguma exaustão. Não há arrependimento porque toda loucura há de ser perdoada. Você mergulha fundo no momento e nada naquela boca que vem fantasiando por tempo indeterminado: o campo é minado, mas é bom explodir a vida de vez em quando para variar.

O rito é rápido e sem grandes direitos depois das portas abertas. Vale a pena. Você bem sabe que vai levar pouco disso tudo. Não tem mãos para carregar mais do que o desejo te pensou. Algumas horas suaves e ferozes bastam. Depois é só dar um passo para dentro de si mesmo e seguir em frente.

Quando chega em casa, tudo está como você deixou. Você já esqueceu quase completamente o que houve. O que houve mesmo? Toma um banhozinho e desaba na cama um pouco cansado, um pouco cego e pensa calmamente: " se alguém falar alguma coisa, eu refuto, eu renego, eu nego".
Porém você e eu sabemos perfeitamente que algumas coisas nunca terminam quando terminam. Nada é tão simples assim mesmo quando o início já começou no fim. Então, caro mio, cuidado com a rota e a reta, os risos e as rosas, os sabores e os saberes. A gente nunca sai incólume dos delírios e dos nossos obscuros objetos de prazer. A vida está sempre esperando uma derrapada na curva: nem todos os corpos possuem amortecedores. Alguns acidentes de percurso podem ser insaciavelmente cruéis.


Karla Bardanza









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