ÁGUAS TURVAS


Não acredites em tudo que digo.Não acredites no meu olhar. Meus punhos fechados são a verdade que aprendi. Às vezes, toda a maldição que guardo em meu estojo de maquiagem é apenas a fuga necessária para sobreviver aos espaços vazios de meus livros tão nobres, do meu coração tão pobre.

Quando eu era bem pequena e a enchente levou a minha alma, aprendi que deveria sobreviver sempre. Segurei-me nas paredes vazias enquanto tentava salvar o que restava naquele mar desolado. Naufraguei dentro de mim.Lembro do medo e do perigo escondido nas águas turvas. Lembro que tive que recomeçar. Fechei os olhos para não ver mais nada que pudesse levar-me novamente.Quando vejo que as ondas são maiores do que eu, fujo delas.

O que vês, nunca sou eu, nunca é o que sinto e se minto é para esconder a densidade do meu gemido. Quase não posso caminhar, arrastando todos os pesos que não consigo deixar para trás. Queria entender de amor e de paz.Pouco sei sobre sentimentos profundos. É sempre com pavor que permito que eles entrem no meu mundo. Essa que vês com olhos de nuvens e ar de profunda calma é apenas a mentira que eu acredito.


Karla Bardanza

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