BELEZA ROUBADA


Todas as tardes eram noites de ameaças e abandono e ela, sem entender, levantava-se ensanguentada como o sol, amendrontada, com os olhos destruídos, com o corpo puído: andrajos da solidão e da dor. Havia tanto deserto, tanto cegueira: ninguém via, ninguém sabia e ela em sua confusão, amordaçava a alma para que seu medo não fosse ouvido naquele tempo veloz. Às vezes, ela pensava que se soubesse rezar, talvez um anjo pudesse salvá-la daquele quarto, daquele corpo, daquela voz. O acalanto nunca veio. Ele a matava todo dia mais um pouco, jogando-a no mar estagnado do desespero calado, sufocando-a com mão impura na tarde morta e escura.Quando ela olha para dentro si, ela não gosta do que ainda esconde. Então, enche as mãos de bonecas apenas para lembrar do que lhe roubaram.

Karla Bardanza

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