NA PORTA DO CÉU



Quando eu não tinha nada, você roubou tudo de mim. Então, passei a acreditar menos em anjos e a pensar que a minha bagagem ficaria toda na porta do céu: você levou todas, especialmente, aquelas necessárias para saber caminhar. Nunca pude ver a face das estrelas como deveria também. Meus olhos nunca tiveram aquele encantamento necessário que as crianças costumam ter. Acho que o meu corpo perdeu a alma naquele terremoto tão particular. Não creio que eu tenha vivido um desastre natural. Quantos pedaços de mim ainda estão lá? Os destroços do meu mundo são feitos de enchentes e carinhos desumanos.
Às vezes, páro diante de mim e não tenho para onde ir. Fico fora com o coração e as calças na mão, sentindo uma dormência nos sentidos. Algo ainda dói. Por que será que as coisas ruins não envelhecem? Estão sempre tão novas dentro da gente. Por que será que perdemos coisas que nunca poderemos pagar para ter de volta? O preço é alto demais para que possamos pagar.
Olhar para trás é recuperar a dor. Não consigo entender nada. Sento na escada e admiro o céu como a única alternativa possível e é o único momento em que descanso a seriedade e sou criança mais uma vez.

Karla Bardanza

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