NO VENTRE DA DOR



Essa dor que dobra a alma e o destino foi escrita sem a permissão dos deuses. Sinto ainda esta queda para dentro do abismo de fogo. Sinto. As labaredas beijam a minha pele com tanta suavidade e queimam todas as palavras, todas as promessas, todos os sonhos. Inalo a fúria deste momento sem ontem enquanto as lágrimas ardem: gotas do sempre perigoso amor.

Não tento escapar do sacrifício: aceito a tristeza como quem pariu um filho.Olho-a com curiosidade, examino cada detalhe, cada erro e os meus olhos molhados já não podem procurar o norte, o caminho para o depois.

Não estranho mais essa súbita morte. O abismo me acolhe com tanta gentileza: estou no ventre da dor para renascer mais uma vez. A vida está em gestação e eu apenas habito a noite insone.

Permaneço calada,ouvindo as chamas crepitarem no meu coração.As trevas cantam para que eu durma, aconchego-me em seus braços, já cansada. Olho o céu mais uma vez e vejo a lua jogar os seus cabelos sobre mim, sussurrando mansamente que é chegado o fim. Ouço com docilidade e enquanto a dor dobra o destino, fico de luto, arrasto mais um dia.

Karla Bardanza

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