NUA DE MIM



Essa nudez tão sagrada veio com o tempo, com todas aquelas coisas que não consigo abortar da alma.Algo é maior do que as minhas tentativas de ser o que me ensinaram ou o que eu deveria fazer. Eu não consegui ainda me encaixar ou colocar os pés no chão. Prefiro o delírio, a ousadia profana, a vontade de ir para as estrelas. Tentei ir vestida de conselhos, sabedorias, filosofias, sem entender que eu sou apenas eu olhando o outro e o seu além, porque sou eu mesma e não há outra igual a mim.

Quando aprendi que mal e bem são palavras subjetivas e inconsequentes, percebi a grande verdade da vida: somos apenas gente nessa dura tarefa de viver.Somos o que podemos ser nesse contexto premeditado e não escolhido.Caímos na vida sem sabermos nada, apenas que morrer é certo.Todo o resto é ganho.Dessa forma, se é a vida é que nos resta, devemos viver com a intensidade que apenas a perfeição conhece, sem lamentar, sem buscar ser o que não nos cabe.É tão bom sermos nós mesmos!Não adianta a maquiagem barata que se dissolve com o suor diário.Limpemos o rosto, lavemos a alma: somos seres finitos no infinito.Somos individualidades.Nossa singularidade é a nossa melhor bagagem .

Eu cansei de querer ser ou parecer com o outro.Então, tirei a roupa que me prendia os movimentos e fiquei nua de mim para ser apenas eu.É claro que os meus olhos estão na alteridade.Afinal de contas, como disse Martin Luther King "ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas". O outro não é, nem nunca será o meu espelho porque sou diferente dele.Contudo, não estou longe deste outro.Não sou incompatível com ele: contemplo a sua diferença.Acima de tudo, este outro me dá a justa medida de quem sou.Preciso dele para me tornar eu mesma e isso é fantástico.


Karla Bardanza 

0 comentários:

Postar um comentário

Pode falar agora!