QUANDO CRUCIFIQUEI AS PALAVRAS



Crucifiquei todas as palavras naquele momento em que a noite uivava. Não me perdoe pai, eu sabia o que estava fazendo. Eu só queria o sangue morno escorrendo pelas letras disformes e nada mais.Quando as metáforas ofegavam no papel, enfiei a última estaca e morremos juntas, sem entender essa  perda das asas.Não consigo mais voar.Não consigo entender de amor.
Tudo eu que queria era ser uma boa tecelã e ter nas mãos as linhas certas que me levassem ao infinito. Tudo que eu queria era apenas os fios de um texto sem dor.No entanto, o pedágio da vida é sempre alto. Então, mato e morro. Eu juro que eu tentei viver.Quando morri a primeira vez, a própria vida me perdoou e me deu uma segunda chance. Agora, sinto a roupa respingada por dúvidas novamente , sinto essa vontade de abrir a janela e pular para quem sabe, cair nos braços da poesia e morrer com sonoridade. A rima perfeita não combina com o amor, nem com o desejo.A rima perfeita dilue o beijo que nunca chegou a ser.
O que sinto, solidifica o ar. O que sinto, desmaia por trás de mim em poemas que açoitam a alma. Abro as mãos e mal aguento o peso dos versos livres, porque algo ainda vive escondido.Esta compreensão é uma coroa de espinhos, uma estigmata.
Não tento curar esta chaga. O amor é um corte profundo sem direito à sutura ou cirurgia. E no entanto, morro sempre na UTI da utopia, rabiscando palavras que foram signo e sorte e que agora, escrevem o meu epitáfio e anunciam a minha morte.


Karla Bardanza

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