COVARDIA

De costas, ele joga fora as cores do vento, o rosto daquela mulher, as palavras ditas quando ele quase pode ser ele mesmo e perde a alquemia da vida com tanta paz e covardia. Os olhos de vidro estão quebrados: pouco ele vê além do imediato, de seus atos sem memória.Pouco ele pode dar de si. Ela é a música presa no ar, ela é a noite suspensa entre a poesia e o inverno. Não há mais nenhuma palavra deixada na garganta. Ela sai como entrou. Veio de uma nuvem, veio dos castelos que ele deixou ruir. Cansada, lembra o que a sua mãe havia lhe dito:”você nunca foi feliz”. Havia lágrimas, muitas gotas de cristal nos olhos da mãe. Havia dor. Ela não sabia o que era ser feliz. Ela não sabia.
Quando fechou a porta do castelo sem cavalheiro, passou pelo fosso, admirando os jacarés. Choravam por eles? Atravessou o último portão a pé, tirou os sapatos e descalça, caminhou pelas pedras até que as bolhas fossem a melhor lembrança daquele momento descuidado.
Ele continuou calado, olhando pelas frestas da janela. Não sabia se estava aliviado ou não. Talvez, a melhor conclusão seja aquela que a vida empurra goela abaixo. Sentiu-se um pouco covarde, sentiu-se o que ele sempre havia sido. Sem pensar e com os olhos estilhaçados, fechou o livro sem fotos, sem nunca o ter lido.

Karla Bardanza

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