DE PEITO ABERTO

Os cacos desta história que o amor quebrou não estão mais no chão oferecendo perigo. Joguei um por um no mar hoje pela manhã quando o sol ainda me desconhecia e eu aprendia a desobservar o passado. Foi com calma que me desfiz de cada palavra soprada em minhas mãos. O ritual foi lento: foi quase uma liturgia com as águas, um novo batismo de mim por meus medos que deixaram de me vestir. Não sei se renasci melhor, não sei se a Grande Deusa me amparou em seus braços de luz. Sei apenas que sai dali mais plena e consciente da minha dimensão como pessoa, ser humano e mulher. Por um singelo momento, escutei o eco da minha alma tão forte ocupando todo o universo, toda a eternidade serena. Todos os outros ruídos morreram no vento.
Não sou culpada pelos meus segredos, não sou culpada pelo destino ter me atropelado quando eu nem sabia andar no mundo dos mortos. Todos temos nossos enigmas. Algumas pessoas decifram alguns rapidamente, outras passam a vida inteira desconhecendo quem está do seu lado. Às vezes por distração, outras tantas, porque a vista está cansada demais para ver além. Eu tatuei todos eles nos teus ouvidos insanos e tortos, nos teus olhos cegos e mortos. Não me arrependo de nada. Faria tudo outra vez. Pode ser loucura, mas faria. Por que? Porque eu tenho orgulho do meu coração desarmado e crente. Porque você foi o melhor erro de todos os meus erros, a estrela mais linda que morreu na palma da minha mão.E é assim que vou lembrar de ti: como uma estrela cadente que morreu sozinha no céu sem destino.






Karla Bardanza



















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