ROUBEI OS PONTEIROS DO RELÓGIO


Roubei os ponteiros do relógio: a hora não mais transborda.Posso contê-la entre as paredes vazias do agora. Não ouço mais o tic-tac ensurdecedor desse tempo que me controla. O silêncio escoa manso e não mais separa o meu corpo da minha alma. Posso, finalmente, libertar essa escrava que vive dentro de mim, tão amiga de Camus, tão distante do corpo e todos os princípios do prazer.
Estou livre e a verdade não liberta. Não sei como andar sem as correntes. O agora é um carro em alta velocidade. O amanhã pode ser um desastre.
Observo o relógio sem os ponteiros, morto, em cima da mesa enquanto o tempo passa. Sim, o tempo passa mesmo quando eu quero crer que o tenho nas mãos. Fingo não contá-lo e, no entanto, ele extravasa no meu corpo, arrumando-me cabelos brancos, perfurando mais uma vez o meu coração esmagado pelo peso do medo, estilhaçando os meus olhos de vidro.
Continuo a escrava da areia que escorre incessantemente na ampulheta do agora e que morre sem permissão. Deito em cima de mim, lavo as mãos.Tempo-Deus, que seja feita a vossa vontade.

Karla Bardanza

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