QUE HAJA APENAS PAZ

Photo de Rosie Hardy

Essa metáfora ficará de luto dentro de mim. Eu não a busquei, eu não a chamei. Eu apenas a aceitei dentro de mim. Lembro que os meus olhos estavam fechados. Lembro que os poemas, todos eles alargaram os meus poros para que ela entrasse em mim. Eu permiti essa dor. Sim, eu permiti que as palavras me amassem e eu as amei porque cada vez que o meu nome era escrito, eu me sentia tão maior que eu mesma.

Tudo ganhou uma dimensão tão grande e eu perdi as minhas entrelinhas. Quando abri os olhos, eu já não era mais eu mesma. Deixei que você me adivinhasse, deixei que cada linha de teus poemas fosse a minha verdade também.

Hoje sai, sentei e conversei apenas para esquecer o que não esqueço. O que é realmente o amor? Todos os poemas que me escrevestes e não sentistes? Todos os telefonemas que me destes? Todas as palavras que dissestes e nada significaram? O que é o amor? O lamento do mar no meu peito? A chuva deslizando na palma da  minha mão? Essa dor horrível gritando dentro do meu coração? Essa dor horrível que é lembrar de você?

Todas as consequências ficaram apenas para mim. Todas as metáforas são a minha herança para você. Começo a me habitar novamente. Lamento a máscara caída antes do carnaval, a tua infidelidade tão mesquinha: como pudestes ser tão infiel a ti mesmo? Nada digo por mim. Nada direi das tuas verdades poucas. Nada direi mais.

Ontem te enterrei. Que haja apenas paz, somente paz no grande vazio que foi esse amor que deixei junto com as metáforas para sempre, para trás.


Karla Bardanza



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