TECELÃ


Quando alguém lembrar de abrir a minha caixa-concha e me fizer sair, não saberei todas as coisas que deveria saber. Serei mais fumaça do que gente e estarei curvada pelo peso de voltar a viver.Quando decidi morar dentro de meus mistérios, havia tanto azul no céu e as nuvens discordaram de mim: tentaram desenhar a felicidade naquela imensidão, sopraram poemas aos meus pés, jogaram pétalas em minhas mãos.


Mas a vida, essa vida silenciosa e brusca fugiu tão rapidamente de meu corpo. Por um tempo, não tive alma, calma ou exatidão. Por um tempo, não tive olhos ou entendi o sentido das pedras, dos incensos e das cores. Calei-me. Não sei se foi melhor assim. Matei-me.Não sei se foi melhor assim.


Custa-me apreender o real. Deitada em meus confins, vejo tudo por outro ângulo. Todo o privilégio está em resistir. Resisto abraçada ao pouco de mim que ainda guardo para a lua cheia, para as noites perfumadas. Todo o resto é maresia e amanhã. Amanhã, vou esperar.


Algo está incrustado na minha caixa. Toda a visão não abarca os detalhes tampouco os mistérios lavrados pelo vento. Um momento ficou suspenso: uma palavra não dita levou toda a minha vida. Recordo-me.


Amanhã, eu saberei responder como foi que desaprendi a tecer os fios do infinito.




Karla Bardanza

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