ESSÊNCIA


Abri o ziper da minhas calças e deixei milhares de borboletas voarem de dentro do dentro de minhas entranhas quentes e confortáveis. Sairam tão rapidamente, tão livres e tão prontas para as melhores aventuras. Meu estágio de crisálida acabou. A metamorfose não foi fácil: durou o tempo suficiente para eu entender que as asas sempre nascem cedo ou tarde. O tempo sempre sabe quando.

Quando fui larva, rastejei por cima do meu nihilismo devagar. Queimava mais a mim mesma do que aos descuidados. Foi uma fase estranha. Quase não conseguia me movimentar tampouco entender o que era e o porquê daquele momento abissal, pendurado na noite eterna da alma. Tudo estava de cabeça para baixo ou talvez, eu estivesse de cabeça para baixo. Não sei. Minha visão não compreende certas facetas do real.

Diante desta nova potencialidade do ser, me inscrevo como algo que ainda desconheço. Não sei se a transformação já acabou totalmente e o onde estão todas as flores que preciso.Não sei se o recomeço esqueceu o final ou se é o final que pressupõe vários recomeços. Faltam-me maiores experiências, dados, informações. Preciso olhar para dentro.

O bom está nesse sentir alforriado, na não racionalização do prazer, na beleza do colapso que traz uma nova abertura para as borboletas fugirem e eu junto com elas.

Algo me transformou. Espero que as novas asas não sejam difíceis de carregar. O peso da liberdade pode doer.


Karla Bardanza

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