OS FIOS DO INFINITO


Fechastes os meus olhos com os fios tênues da paixão. Fiquei olhando para dentro, procurando a clareza inacessível que o sentimento não consegue trazer. Uma onda de ideias tumultuaram todas as minhas certezas, carregando-me para o além, o muito além do jardim: uma flor não era uma flor, uma palavra dizia tanto. Costurastes os meus olhos para eu não ver e eu não via a minha própria cegueira.

Enquanto a vida estava toda dentro de mim, enquanto eu deixava que os meus olhos fossem alinhavados por estas coisas que pouco entendo, nada parou de existir. O mundo sempre respirou sem mim, você sempre respirou sem mim. O momento de descoberta é sempre tolo se não sentíssemos tanta dor e pena de nós mesmos.

Arrebentei essas linhas vagas que ainda insistiam em me fazer menor do que já sou. Joguei fora aquele agulheiro e os carretéis. Agora que abri os olhos, estou fazendo um patchwork de emoções, pespontando as coisas que perdi.

É difícil colocar a linha no olho da agulha: minhas mãos tremem. Permito que ela me guie com delicadeza e mansidão pelo veludo dos acontecimentos e vou fazendo a bainha do tempo com os fios do infinito , com tudo que senti e ainda sinto, sinto, esquecendo todo dia um pouco mais de olhar para dentro e para trás.


Karla Bardanza

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