OUVINDO COCTEAU TWINS


Como se eu pudesse esquecer, esqueço. Afasto-me de mim mesma e fico do outro lado do rio da memória com tanta distância e mansidão. Lembranças diluem, lembranças são pastilhas coloridas na água da vida: às vezes, grandes borbulhas sobem e estouram no inconsciente. Permaneço, permaneço sentada no sofá, olhando para o teto, ouvindo Cocteau Twins, sentindo a vida tão perto dos Deuses e do fim. O amor não sente. Quem sente sou eu na minha (in)sensibilidade. O amor não pode mais me acolher. Quem me abraça e me consola sou eu mesma com essas mãos apagadas, sem linhas ou direção.

Talvez seja saudade, talvez seja angústia. Talvez seja apenas cansaço e perda. Há tanta areia em cima de mim, não consigo respirar neste canto apertado e escuro, neste mistério que nos afastou e uniu de de uma só vez.

Os encantos devem estar em algum lugar, lembro apenas do que mais me fez abrir a janela e saltar de olhos fechados, sem pensar porque quando doía, eu não pensava., porque ainda dói e eu não quero pensar, não quero.

Agora sangro apenas palavras. Agora os pulsos estão fechados e a vida me empurra com pressa. É melhor não parar, não olhar para trás porque posso não mais voltar, porque posso fazer tudo de novo e não errar.

Então, celebro a dor com carinho, com esta música, com estes olhos que olham para o que foi perdido
sem ter sido perdido porque o que é eterno permanece na ausência e é apenas na morte que temos consciência plena do amor e da vida.

E a vida está aqui, olhando para mim, esperando eu levantar deste sofá e seguir em frente novamente, novamente. Espero a música acabar.


Karla Bardanza

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