A RAPOSA DISSE


Quando se anda com as mãos vazias é mais fácil: pode-se segurar o peixe que foge pelo rio ou acariciar as folhas de uma árvore,  pode-se cumprimentar outro com mais ênfase e tantas outras coisas que apenas aqueles que nada guardam ou têm podem entender.

Larguei tudo que tinha no chão do passado e desapeguei-me dos conceitos e das frases quase feitas, joguei fora as verdades. Elas de nada me servem se eu não construir as minhas.Também abri mão dos óculos: estou tentando enxergar as coisas como elas são, sem distorções ou aumentos, sem aproximá-las.

Caminho apenas com o essencial e como disse a velha raposa: " o essencial é invisível aos olhos". Não me importo com a simplicidade dos meus passos ou com a minha quase invisibilidade. Prefiro mesmo deixar que os olhos contemplem as flores e todos os motivos das rosas. Acho que nada é mais maravilhoso do que prestar atenção aos mistérios das águas.

Sinto que sem as bagagens nas mãos, estou mais leve, mais breve, mais ágil. Ontem peguei carona com o vento. Nem sabia que podia voar se estivesse as mão vazias e o coração livre.

Consigo andar na corda bamba e dançar suspensa nos fios do infinito. O importante sempre será o que sinto. Todo o resto é nada mais que miragem e acontecimentos. Todo o resto anotei no livro do esquecimento. Viver é caminhar na direção do que pode ser. Se mantiver tantos pesos nas mãos, jamais poderei correr e chegar lá. Onde? Onde o essencial é invisível aos olhos.



Karla Bardanza

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