ALTER-EGO


Quando ela caminha silenciosamente pelos jardins do céu, as cerejeiras curvam-se, suspirando. Ela é um sonho que anda. Ela é um claro enigma. Quem morre em seus olhos, diz apenas que eles são lagos profundos, perdidos, aos pés do sol. E todos morrem mansos e insepultos.

Dentro dela, todas as inquietações desmaiam amordaçadas, abraçadas pela esperança que nunca bate à porta. Ela não reclama: aceita o que a vida lhe dá com calma e fúria, sem olhar a verdade nos olhos.

O que ela é, apenas ela mesma pode responder. No entanto, ela nunca se pergunta coisas assim. Às vezes, quanto coloca aquele pó branco no rosto e pinta a sua boca tão suavemente, olha-se no espelho. Mas, nem olhando para o seu reflexo, consegue saber quem é.

Ela foi treinada para não sentir, para esquecer o coração e assim faz, com tanta delicadeza e sabedoria, servindo sempre mais a lua e a poesia.

Quando abro a minha blusa, ela está sentada no meu peito. Olho para ela sem jeito, procurando entender o que ela faz ali e cada vez mais, identifico-me com ela, sabendo tao pouco de mim.



Karla Bardanza

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