LIÇÃO DE VÔO


Ela abre os braços e aprende com os pássaros a olhar os olhos vazados da liberdade: essa coisa distante demais de suas latitudes limitadas, de suas longitudes limitantes.Enquanto ela pastoreia nuvens, buscado fôlego e asas para ir além da cozinha, do sofá e da sala, a casa fecha as portas, as janelas fecham as cortinas, a cozinha traz o chicote, o marido pede uma cervejinha gelada, os filhos brigam mais uma vez.E ela que perdeu a voz na penúltima vez em que brigou por causa do futebol de domingo, começou a engolir sapos com mais rapidez. Porém, foi de pássaros que sempre gostou. As gaivotas são as suas preferidas. Elas lhe cortejam, lhe amam, lhe assobram.


O barulho continua com os gritos dos filhos adolescentes. Fase mais indecente não há. Depois que eles vão para à escola, ela pode sonhar com mais delicadeza. O marido só sabe que ela respira nas horas das refeições. nunca fala de boca cheia, nunca come o suficiente. O que ela sente quando ele termina de comer e sai como se nunca tivesse entrado?


Todo dia ela desobserva as palavras da mãe, as coisas que aprendeu numa escola religiosa, os bons costumes ultrapassados da solidão e abre as mãos, buscando a linha do destino, querendo inaugurar a linha do desatino com uma certa urgência.


Ela acabou de colocar uma cadeira bem perto da janela da varanda. Agora, subiu nela descalça e está estranhamente batendo os braços como se fossem asas e olhando para um bando de passarinhos migrando. Creio que esta deve ser a sua última lição antes do primeiro vôo derradeiro.


Se ela voar, que a sua alma voe primeiro.




Karla Bardanza










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