MULHER DESPEDAÇADA


Abro a porta e saio com os olhos cansados de olhar para dentro de mim. Meus passos arrastam-me enquanto cavo os bolsos furados, procurando por um punhado de esperança e sol. Árduos sãos os dias em que acho apenas o suficiente para ir e voltar, sem chegar a nenhum lugar.


Algo em mim não consegue se adaptar a essa realidade de fios puxados, esgarçada, cheia de pequenos grandes buracos que não param de aumentar cada vez que eu perco a voz e as estribeiras ou quando estou à beira dessas coisas que deixam a minha vida mais pobre de encantamento e soluções.


Caminho, carregando em minha alma bem mais do que posso, do que preciso. Naqueles vãos momentos em que alguma coisa lembra-me de vôos e céus, ponho as mãos nos ouvidos apenas para não escutar a boca dos sonhos reclamando todos os espaços, que tenho lhe negado há tantos anos.


Olho o relógio, continuo rastejando para aqui e ali, continuo fugindo de mim. Assino o ponto da morte quase todos os dias. Às vezes, faço questão de esquecê-lo e digo que vou assinar depois.


Volto para casa, sento no sofá já tão cansada, que quase não dá tempo de pensar antes de cair no sono dos tolos, dos toscos, dos que cruzaram os braços do coração e esperam sem esperar, por aquilo que pode salvar.


Quando acordo, sempre noto que está faltando um pedaço, justamente aquele que ficou nos teus braços, justamente aquele que me deixa muito menor, muito mais vazia é só. Mas nunca faço nada: acostumei-me a ser essa mulher despedaçada.




Karla Bardanza























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