AUTORIA


Meu endereço esteve por tanto tempo coberto pelas heras e pela poeira de todas aquelas coisas que escondem o futuro e até a esperança. Deixei que as plantas crescessem bravamente e cercassem a saída e a entrada para uma nova história e todas as possibilidades. Morar naquela casa era confortável, era o hábito mais sórdido e passional. Ali apenas eu mesma ouvia o meu antigo lamento e medo. Nunca consegui abraçar as suspresas sem ter os olhos cobertos por nuvens. Permaneci naqueles cômodos, limpando sempre as mesmas teias das minhas amigas aranhas. Fiz amizade com os morcegos enquanto relia o mesmo livro. Foi fácil ser uma sombra, uma recordação de mim mesma. Difícil mesmo foi acordar por dentro, foi quebrar o espelho e me ver partida em milhões de pedaços e sonhos, já com os olhos cansados e a pele descolando do corpo.

Quando resolvi dar uma chance a mim mesma era tarde demais para não recomeçar. Abri as janelas e havia um sol enorme cegando a minha alma. Tanta luz! Tanta luz! Fui abrindo os olhos com mansidão, sem dizer nenhuma palavra, sem ouvir as músicas ou admirar as fotografias que me davam um senso de identidade e glória. Fui abrindo as mãos e deixando as bagagens pelo chão onde sempre deveriam ter estado. Fui andando nua e devagar pelo jardim, pensando menos em mim e nos pequenos delitos da vida.

E no meio da rua, exposta e mais sábia, ganhei a visibilidade perdida, a voz e a fé, a grande fé em mim mesma. Não sei se estou melhor. Disso tudo restou uma única lição: a de que posso ainda me reerguer e continuar a escrever um outro fim para a minha personagem.


Karla Bardanza


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