EU SOU DERRADEIRA

Fotografia de Waatson-Kalugin



Não sei ainda se és santo ou grande ator. Meus olhos morreram. Recolho-me atrás das folhas e das flores neste tempo de assombro e ira, pensando pouco, sentindo as minhas utopias, a minha poesia quente nas veias chegando a nenhum lugar. Parei de procurar respostas, encomendar análises: sou apenas a reflexão do que a minha sombra quer.Também não sei qual é o meu sexo. A mulher em mim deixa-me mansamente furiosa quando o homem escondido em minhas entranhas abandona as minhas atitudes ferozes por ai.

Estou um pouco mais covarde e achatada pelas circunstâncias exteriores. O mundo é perigoso para quem fala ou escreve mais do que pode. Não duvidem nem disso e nem do meu sexo. Não creiam também que o destino de mulher é apenas o silêncio. Não me canso de ser duas, de ter uma vagina no meio das pernas e um pênis vitoriosamente plantado no pensamento, ultrajantemente ereto nas horas certas e frias da mágoa. Desconheço-me. Reconheço-me. Eu sou ambivalente, indecente, inocente, voraz e derradeira.

E mesmo assim, ainda não consegui definir-te, tampouco, entender o teu discurso hermeticamente fechado para maiores de 40. Minha maioridade impede-me de fazer algumas coisas que eu fazia com louvor: errar no amor, gritar quando não podia, fazer poesia no meio da aula, fazer amor com a pessoa errada. No entanto, admito que ter mais de 40 deixou-me mais gostosa. Mastigo com prazer as minhas idiossincracias e dilemas sem problemas. E ainda, assim olho dentro de você e não vejo nada. Melhor assim: a vista cansada pode ser bastante lucrativa. Vejo muito menos mas, me aborreço menos também. No final das contas, já entendi que mal e bem são duas asas nas costas do meu diabinho. Ele ainda me completa.


Karla Bardanza








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