O ENCANTO DO PRÓXIMO


Fotografia de Elena Dudina


Nestes vastos anos em que ensino e aprendo, conquistei algumas coisas: bursite nos dois braços, amigas e amigos, promessas de políticos e a verdadeira aceitação do outro. Não me pergunte se foi fácil porque não foi. Até eu conseguir entender que o outro era ele mesmo e que eu não podia mudá-lo para satisfazer o meu ego frágil, demorou muito. No início, tentava empurrar os meus pensamentos goela abaixo da pessoa, sem considerar nada, além de mim mesma e do que eu julgava ser melhor. Mas, nem sempre o que é melhor para mim é também para aquele que me fita, já cansado das minhas peripécias pequenas. Tenho apenas a idade a meu favor: quando se é jovem pode-se errar uma vez ou outra.

Aos poucos, aprendi a apreciar as pessoas, buscando o que elas tinham de mais sábio e precioso, olhando dentro delas com vontade de mudar. O outro é sempre um bom professor: ele nos ensina a entender que a felicidade está em amar e aceitar sem grandes questionamentos e filosofias. Lembro que essa epifania veio quando eu tive uma aluna que era péssima, segundo a minha avaliação limitada. Um dia, entrei na sala e a vi ensinando como fazer bijuterias. Simplesmente, por intuição ou sei lá o quê, sentei e a pedi que me ensinasse também. Engraçado quando você deixa a capa de professor e volta a ser aluno. Ela ficou tímida diante da minha atitude. Aos poucos, o ar fluiu e ficamos juntas, fazendo anéis e pulseiras. Essa menina quebrou as minhas defesas sem querer e eu cresci. Depois dela, compreendi um pouco mais a vida e o que estou fazendo por aqui.

Não parei nunca mais de aprender depois. A vida oferece mil possibilidades de mudanças desde que possamos aceitá-las. Todos dividimos o mesmo espaço. Todos somos iguais? Não e não. Somos tão diferentes. Porém, nosso julgamento subjetivo quer sempre rotular o outro, amansá-lo, podá-lo, fazê-lo ser aquilo que achamos melhor. Melhor para quem? Para mim ou para ele/a? E a identidade onde fica? É bom ser diferente. É maravilhoso permiti que o outro nos encante. Ainda bem que aprendi a apreciar.

Não me pergunte se sou uma pessoa mais nobre, profunda, humana, etc. A única coisa que sei é que todo mundo tem algo a dar, a dizer. Todo mundo tem um encanto guardado no fundo da alma. Resta-nos somente deixar que o outro desabroche dentro de suas possibilidades e beleza. Ainda creio que a maior função de um professor é trabalhar a emoção e a delicadeza. E isso, conseguimos se cultivarmos em nós mesmos olhos de ver, ouvido de ouvir e um coração sempre aberto.


Karla Bardanza










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