QUANDO EU ME CASAR

Foto de Edouard Plongeon


Quando eu me casar, vai ser por amor. Não esse amor que seja infinito enquanto dure à la Vinícius. Não! O amor com as horas contadas está riscado da minha agenda, da minha história, dos meus retratos. Gosto de coisas grandiosas, de intensidades, de coisas que queimam e ardem. Amor que acaba logo depois do primeiro ensaio e do segundo erro é para quem tem tempo e eu já não tenho mais. Acho que nunca tive. Deve ser por isso que nunca casei antes.

Posso até ver tudo. Eu vou estar de branco: esse branco dos que possuem olhos de centelhas e mãos de delicadeza .Talvez, eu esteja apenas vestida de mim e com os pés descalços, pisando na suavidade do momento com graça e fé. Talvez Joe Sartriani esteja lá tocando Love Thing enquanto eu estiver atravessando o sonho com os cabelos apontando para o infinito. Tudo dependerá das nuvens e das árvores.

 Entrarei neste casamento com os olhos fechados para não ver as imperfeições do outro e nem as minhas. Será melhor manter a boca sempre pronta para um beijo e a língua cheia de palavras guardadas no peito. As mãos estarão sempre abertas e dadivosas. Preciso de mais do que uma aliança no meu dedo: nele prenderei o amor como pipa. Sempre livre e à vontade.

Irei bem devagar, gozando, exercitando o desejo, o silêncio, a minha próspera verdade. Irei sozinha, olhando na direção do meu amado, nos olhos do meu amado, cabendo inteirinha no sonho dele e na minha poesia.

Vou prometer todas as coisas que o vento trouxer para dentro das flores: sementes e o eterno desaborochar. Vou prometer apenas a vida porque o amor verdadeiro é para além. Vou prometer o nosso bem, o nosso desafio e viagens para dentro da lua e quando eu estiver nua, vou prometer o que  ninguém deve escutar.

Quando eu casar, algo estará no canto escuro do mar, abençoando o momento. Algo vai abrir a boca do tempo e eu passarei pelas alamedas com a minhas bagagens: uma filha, alguns gatos, uma cachorra, muitos livros e vários problemas para resolver.

E acima do mundo, quando eu casar, vai ser com você: com a pessoa certa, com o deus que irá acender as estrelas na minha testa e o sol nos meus seios, com aquele que saberá carregar os meus receios e as minhas malas com doçura e boa vontade.

E lá no fim de tudo, eu vou olhar para trás com saudade e já bem mais velha do que estou. Falarei sozinha então que faria tudo de novo pelo teu fogo, pelo teu mel. E depois de muitas eternidades e conflitos, vou te encontrar descalça mais uma vez, com a barba por fazer, lá no céu.




Karla Bardanza








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