UMA MULHER DE DIMENSÕES INESPERADAS


Foto de Lili Roze


Abriu os olhos sem saber se estava viva ou morta, sem olhar as horas ou o calendário e ficou deitada na cama, procurando o desejo. Não sabia mais quando aquele corpo tinha caído das nuvens ou encontrado as mãos do encontro. Não sabia mais nada de si, nem qual era mais o seu sexo. Tinha esquecido essas coisas que diferenciam as mulheres dos homens. Tinha esquecido de si mesma em algum ano. Quando foi que isso aconteceu? Vasculhou as gavetas da mente, procurando por rostos, por palavras, por momentos de entrega e beleza. Não encontrou quase nada que fosse precioso, digno de guardar na memória ou nos bolsos do coração. Os amores tinham sido casuais depois do casamento, o sexo perfeito para aqueles momentos sem eternidades: a vida foi e ela não viu qual era o portão de embarque.

Desceu a mão pelo corpo, procurando os erros, as faces, as pequenas verdades. Sentiu-se menos mulher sem um homem. Um homem...Já tinha passado dos quarenta e quase tudo tinha perdido um pouco do sentido. Por que logo agora estava tentando buscar o que já não lhe pertencia? Por que tinha acordado com sede de braços, com fome de bocas? O que estava acontecendo se já tinha eliminado o prazer da vida? Explicações não vinham. Fechou os olhos e lamentou não ter tido uma vida "normal", com um casamento e um final feliz. Tudo tinha dado errado. Menos a parte dos filhos. Mas, os filhos haviam crescido e buscado outros caminhos, enquanto ela estava ali, sozinha, assombrada por essa lembrança de saber-se repentinamente mulher de novo.

Foi ao armário, pegou um albúm de fotografias antigo: precisava de uma identidade. Precisava voltar para dentro de si mesma e reencontrar o rosto de antes, o sorriso, os olhos cheios de claridades. Admirou foto por foto e depois fechou os olhos, vendo a felicidade, vendo coisas que já não sabia mais ver. Se pudesse voltar, apagar as cenas erradas, as falas que não deviam constar no script, a direção que não soube como aproveitar a beleza de sua alma. Se pudesse...Chorou como já não chorava: chorou por ele, por ela, pelos pequenos e grandes erros. O amor sempre magoa quando termina sem permissão.

Deitou abraçada ao passado e mais uma vez esqueceu que era um ser desejante, uma mulher cheia de dimensões inesperadas e equações não resolvidas. Dormiu sentindo saudade de si mesma.



Karla Bardanza







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