ESTIAGEM

Fotografia de Hannes Caspar




Se eu soubesse chorar, a vida não estaria ali fora. Ficaria perto, dentro, ficaria nas artérias, no corpo
que não sabe de força nem de intensidade.Olhe as minhas mãos cheias de vento. Nada carrego para nada perder. Não diga que isto é medo. Não fale que é covardia. Estou aprendendo tudo novamente. As quedas foram tantas que foi preciso reaprender a dar saltos, a sonhar sem desespero, a amar com calma. Continuo a estudar os vôos dos pássaros e a cor das joaninhas. Quero tanto a vida que já não a tenho porque ela está onde alcanço menos,  nas coisas que desobservei quando caia.

Não sei se falar cura, exorciza. Não sei se entender, adianta. Tenho o benefício da dúvida e a eterna ausência de respostas. Chorar deve me colocar no pedestal, me fazer mais gente, me mostrar que estou mais viva. Não sei mas agora não posso, não consigo, não sinto porque sentir dói demais, porque sentir traz tanta inadequação, tanto isolamento e vulnerabilidade. Meus olhos estão secos. Não ligue se eu ficar calada: estou em fase de estiagem.


Karla Bardanza

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