ELA DENTRO DELA







Fotografia de Lili Roze



Fechou os olhos e segurou a melhor parte dele com uma das mãos, sem pensar em nada. Sentiu o avesso do momento com a língua molhada de luar, com a pele coberta de desafios. Ele, em dor, sentiu mais do que o tempo permitia. O rosto se contraía, a vida acorrentava o corpo com delicadeza: aquilo era o que queria, o que temia, o que o abençoava.


Ela roubava dele o pouco de vida que ele ainda tinha, sugando-lhe os restos da alma com vontade, com a loucura dos sentidos, sendo usada e usando. Não sabe porque é assim.


Quem foi o primeiro a abandonar a luxúria? Quem mais precisa de devassidão? Ela é o que fez de si mesma. Dá medo afundar em seus cabelos, perder-se em seus olhos de profundidades ignoradas. Ela é quase tudo ou talvez um punhado de nada.


Não a ame: ela não precisa mais disso. Ela nunca soube o que é isso. Não a chame. Permita que ela diga quando. E quando houver apenas o silêncio pela metade, vá embora sem olhar para trás como todos os outros, sem querer mais. Ela já está imune.


Sonhe com cuidado esta noite e todas as noites que virão. Esqueça as linhas imperceptíveis da mão dela. Ela não viverá até aos oitenta. Está fraca demais para lutar consigo mesma e sobreviver as suas idiossincracias e perdas de amor-próprio. Está cansada de ser vulnerável e da letargia que a deixa insensível. A invisibilidade a enxerga e renega. Ela nasceu apenas para morrer com inexatidão, acendendo o tempo, (se) matando de amor.


Próximo da fila, please.




Karla Bardanza


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