A LISTA DE DESEJOS

Fotografia de Julia Margareth Cameron


Abriu a caixa com as mãos cheias de fogo, esquecendo o mofo e as teias de aranha. Podia dividir o momento com tudo e todos sem problema. Não sabia muito bem o que iria encontrar ali, além do passado e dos cadernos de flores de sua mãe. Estava disposta a saltar no infinito e (re)descobrir aquela mulher tão ocupada, tão distante, tão nervosa. Tinha vocação para essas coisas, para procurar fatos, fotos, palavras escondidas, papéis dormindo nas gavetas, porém nunca tinha se aventurado nos cadernos secretos de sua mãe. Ela não gostava que ninguém chegasse perto deles. Lê-los agora era quase uma heresia.

Passou a mão na capa do de rosas amarelas, tirando o grosso da poeira e depois, assoprou o restinho que ficou. Recostou-se num canto com uma réstia de luz e começou a ler todas as verdades de sua mãe, todos os anseios, todas as angústias e vontades. Quando terminou, pegou o de capa de margarida: havia um mundo de sua mãe que nem poderia imaginar. A mãe sonhava também. A mãe era feita de flores, de delicadezas não anunciadas, de metáforas que a deixavam extasiada. A mãe era uma terra nunca entendida ou explorada. A mãe era diferente. A mãe era um pedaço de um jardim.

Meteu a mão na caixa de novo e de novo até ter lido todos eles. Tinha agora as mais variadas flores em volta dela, as mais belas pétalas em suas mãos. Tinha também uma nova mãe. Uma mulher doce que não tinha conhecido por falta de tempo ou talvez, porque sempre a via correndo de um lado para o outro, trabalhando, contando o dinheiro no final do mês, andando para lá e para cá sempre séria, sempre dentro dela mesma, sempre falando menos do que deveria ou poderia.

Ficou imaginado como a vida poderia ter sido diferente. Ficou relembrando as vezes que viu a mãe escrevendo nos cadernos de capa com flores. Nunca quis ler aquelas folhas até aquele momento. Talvez tivesse medo de encontrar as fragilidades daquela mulher. Sentiu-se tão doloridamente pequena diante da imensidão de sua mãe. Sentiu-se tão desesperadamente só. Abraçou todos os cadernos e chorou, chamando pela mãe baixinho, bem baixinho.

"Mãe, mãe, mãe..."

O que mais doeu foi a última página de todos aqueles cadernos. Foi ali que entendeu mais os olhos de sua mãe, a dor de sua mãe. Ali estava a lista de desejos de final de ano dela. Estranhamente, a lista repetia-se em todos os cadernos. Os mesmos dez desejos estavam lá ano após ano porque de alguma forma, ela não tinha conseguido realizá-los. Na verdade, os dez desejos limitavam-se a dois que eram repetidos: um desejo era o mesmo do número um ao cinco e o outro repetia-se do número seis ao dez.

Ela leu e releu os desejos maiores de sua mãe: "ser feliz" e "ser uma boa mãe'. E sofreu mais porque ela não tinha sido feliz. Nunca havia percebido a infelicidade nos silêncios dela, nem as poucas vezes que a viu chorar. E agora, aquela verdade silenciosa estava diante dela. Sua mãe nunca foi feliz. Por que será que não havia sido feliz? A vida? A solidão?Não tinha respostas para esta pergunta, apenas para a outra.

"Mãe, você foi maravilhosa." pensou cheia de gratidão, cheia de um sentimento que transbordava e enchia o porão de claridades inesperadas.

Começou a guardar os cadernos um a um com o corpo triste, com o peito ardendo e foi ai que o destino lhe falou o seu desejo: uma folha rasgada caiu repentinamente de dentro de uma das capas floridas. Nela havia a seguinte frase escrita com aquela letra perfeita e redonda de sua mãe:

"Filha, eu te amo. Seja feliz. Sua mãe. 30/12/1988"

Ela começou a ser então.



Karla Bardanza



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