TODO DIA UMA FLOR MORRE DENTRO DELA

Fotografia de Anna Wolf



Ouvia ele falar sem pensar em nada. Ouvia ele falar e algo morria por dentro. Ele não podia ver: era covarde demais para entrar naquele jardim secreto. Ela não queria quase nada. Na verdade, ela não queria nada que ele não pudesse lhe dar.

Quando tudo acabou e a vida ficou mais silenciosa, ela entrou no jardim e ficou lá, olhando suas flores, chorando pétalas, acariciando a delicadeza de seu coração. Ele tinha sido água. Ela o bebeu com voracidade, com vontade de acertar. Agora, a sede estava na ponta da língua sem palavras poéticas, nas mãos sem a linha do amor, nas aléias carregadas de azaléias entristecidas, na vida que ele havia levado embora, nas horas sem eternidades.

Todo dia, ela resseca com mansidão, aceitando as coisas intranquilas do amor. Todo dia uma flor morre dentro dela quando suas mãos doem. Quando a vejo, antigas canções escorrem de seus olhos cansados, as árvores se encolhem para ela poder caminhar pelas sombras frias do que nunca deixará de ser. Canteiros inteiros que iam da alma ao coração perdem as forças. Quando será que as sementes acordarão?

Um dia, um dia que talvez nunca chegue, ele irá perceber toda a delicadeza que aquela mulher tinha,
todos os amores-perfeitos que ela guardou apenas para ele. Um dia, o amor desabrochará novamente.



Karla Bardanza


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