VOCAÇÃO

Fotografia de Klaus Kampert


Roeu as unhas já roídas, sentada no canto da sala. Era antropófaga quando a depressão batia na porta e se acomodava nas almofadas surradas no chão."Amanhã tudo recomeça..." pensou com dois dedos na boca. Amanhã era um dia que não deveria chegar nunca. Não sabia se estava preparada para a mesma vida. Pelo ao menos a mesma vida era melhor do que vida nenhuma.


Recomeçar é uma tarefa árdua e suprema. Não tinha vocação para a mesmice mas, acabou virando expert no assunto por escolha ou talvez, omissão. A vida foi engolindo suas vontades com a mesma fome que ela roía as unhas agora.


Colocou o relógio para despertar mais tarde. Queria mesmo era chegar atrasada assim como o amor que nunca chegava na hora em que queria ou como os mesmos engarrafamentos na Linha Vermelha. Deve ser por isso que leva esse nome. A cor já diz tudo.


Pensou nos dias de gado que viriam, nos aborrecimentos, nas muitas vezes que ainda daria soco em ponta de faca. Cansada, contou os anos longos para a aposentadoria, para se libertar do sistema e da falta de poesia. Parou logo, morta e desmotivada.


Deitou e dormiu com os olhos que já não conseguiam mais sonhar.


Na manhã seguinte, pegou o diploma e se lembrou de quem era. Sentiu vontade de jogá-lo no lixo. Havia ainda um pouco de respeito pelos anos em que ficou sentada, aprendendo tudo que não iria usar mais. Beijou-o antes de pendurá-lo na parede de novo. E por alguns segundos, havia o mesmo fogo em suas mãos, a mesma necessidade de mudar o mundo e ser ouvida, a ferida causada pelos anos de profissão, a imensa dor de não saber ser diferente do que sempre foi por vocação.




Karla Bardanza





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