FELIZES PARA SEMPRE

Fotografia de Stefanie Schneider




Parou e olhou os armários vazios, a casa pelada de emoções, a cozinha calada. Ficou parado no corredor, tentando entender os erros, os medos, as palavras atiradas na cara dela. Pegou um cigarro, foi pro canto da janela e ficou observando os casais andando agarradinhos pra lá e pra cá. Havia tanta vida lá fora. Lá dentro, sempre tinha sido prisão desde o primeiro dia. Nunca conseguiu ficar confortável com aquele negócio no dedo. Incomodava pra caramba. Aliás tudo incomodava: ela e as suas exigências, as crianças gritando, o desejo que já não tinha mais por ela. Por que isso tinha que acontecer? Subitamente, ela virou um objeto cheio de poeira, a empregada sem uniforme, uma coisa. Ela sentiu a distância. Fez de um tudo para ele sair do quarto das outras e deitar na cama dela. Ele preferia as do escritório, da rua, do parque, do shopping, da internet. A dignidade dela foi minguando.O respeito entre os dois também. As brigas eram mega-super diárias. Jarros foram quebrando, flores murchando, o ódio sujava a casa.


Ela foi ficando cansada, foi emagrecendo, deixando a vaidade de lado. A mulher que nunca havia sido bonita foi ficando mais feia. Ele sempre longe, sempre chegando tarde, ele sempre aquilo. Ela criou coragem e arrumou um emprego, um empreguinho segundo ele. Aos poucos, ela foi ficando forte. Parecia que ela tinha tomado uma overdose de amor-próprio. Ele passava, os vizinhos cochichavam. Aos domingos, ela sumia com as crianças. Ele sumia também. Depois, ela passou a sumir aos sábados também. As poucas vezes que ele chegava cedo, ela parecia tão feliz. Nunca mais chegou perto dele mendigando beijo nem dinheiro. Nunca mais. Ele parecia gostar da mudança.


Um dia chegou em casa e tudo estava silencioso. Eles tinham ido embora. Ela tinha ido embora. Ficou aliviado. Tirou a camisa, sentou no sofá, colocou os pés para o alto e celebrou a solidão.Com o tempo, foi achando a casa fria demais. Foi atrás dela e ouviu da sogra que ela estava bem e casada com o Oliveira.


Mas já casou?Só tem oito meses que a gente se separou Dona Ana.


É...mas acho que você demorou demais pra se importar né João?


Olhou as fotos antigas na estante, procurou o passado perdido e encontrou apenas o presente. Ela estava lá com as crianças. Todos felizes e sorridentes. ela estava tão linda. Como pode isso? Ela estava linda. Parecia que a vida estava fazendo milagres para aquela família que um dia, um dia que ele nem se lembra quando, tinha sido sua. Sentiu um mal-estar, um estranhamento esquisito. Sentiu um comichão, uma culpa maior que o peito, sentiu um abismo o engolindo, Caiu.


Dona Ana, quem é essa moça ai do lado da Ana em todas as fotos? Não conheço. É parente de vocês?


Essa moça é o Oliveira.


Desequilibrou-se. Nunca mais saiu do abismo. Nunca mais mesmo. Teve a impressão que ela ia ser feliz para sempre com o Oliveira ...E não é que ela foi mesmo!








Karla Bardanza

Copyright©KarlaBardanza2012 Photobucket

0 comentários:

Postar um comentário

Pode falar agora!