METAMORFOSE AMBULANTE

Fotografia de Irene Suchocki




Tento arrastar as palavras mortas de dentro de mim e ressuscitá-las no papel. Massageio metáforas, comparo símiles, soco o peito de cada uma delas numa lucidez enlouquecida, querendo muito mais do que posso me dar.É uma luta inglória. Não consigo vencer a mim mesma nem desenhar letras. Algo parou de funcionar no meu cérebro - essa pupa indelicada.


Tudo está em branco. Quase não sinto.Tento cuspir coisas que estão agarradas, mas não consigo. Pareço sedada, não raciocino ou me emociono. Não me enfureço. Não faço a mágica literária necessária para completar as linhas e voar. O que me aconteceu entre ontem e hoje além da própria vida?


Vejo coisas que nada me dizem. Quanto tempo dura o sempre? Interrogo as minhas artérias, rasgo a pele, procurando o meu sangue que jaz cansado. Algo dissolveu a minha musa, diluiu a minha voracidade. Resigno-me: isso vai passar assim que eu possa deixar de ser menos coisa. Morro-me.


Sinto o aperto do casulo. Quero respirar poesia. As minhas asas odeiam tanta pequenez. Meu discurso curto e sem voz ecoa e reverbera sem que ninguém escute. Porém, a  mudança é quase sempre dramática e avassaladora. Sou uma ninfa apertada num mundo que pode ser mas não é. Quando eu for poeta de verdade, não sei se vou querer ser mais borboleta ou mais mulher.






Karla Bardanza

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