OS ESQUECIDOS



Fotografia de Vivienne Mok




O que será que resta quando o amor acaba após dez, quinze, vinte anos? O que será que vem depois do amor? Quantos silêncios restariam na noite que nunca acaba? Olhava para dentro sem encontrar respostas, sem esperar ou desesperar. Agora restavam apenas as lembranças do que havia sido. Não sabia muito bem quando o fim teve início. Será que foi quando ele começou a se atrasar para o jantar? Talvez tenha sido quando ele começou a sumir. Logo agora que os filhos estavam criados e que tinha pensado em fazendas, vaquinhas e novas descobertas, ele descobria uma nova verdade. Ela tinha amado aquele homem. Amado não! Adorado com A maiúsculo e todas as reticências que cabem na flexibilidade da aceitação. Foram tantos anos, tantos.


Recomeçar. Por onde recomeçar? Pelas roupas? Pelos móveis? Pelos cabelos? Quem sabe pelo corpo? Uma plástica para ajeitar a barriga ou uma viagem. Viajar é bom, alguém disse. Faz a gente esquecer. Viajar pra onde?Nunca tinha saído dali pra lugar nenhum. Viajar como? Não tinha dinheiro. Ah! Preciso de dinheiro, de trabalho...Mas, ele disse que ia pagar uma pensão. Quanto ele vai pagar pelos anos de serviços prestados?Já não sei mais fazer outra coisa além de ser esposa e mulher dele. E agora, quem eu sou?


Quis saber onde errou. Tinha até perguntado a ele. Não ouviu nada. Será isso o amor? Sentiu-se como uma televisão velha substituída por uma com tela HD. Ele já não via uma boa imagem. A outra era vinte anos mais nova, tudo no lugar, cabelos esvoaçantes, mãos bonitas. A outra nem era ela quando ela era ela mesma. Não se sentiu menor. Não falou nada sobre o assunto nem com os filhos. Apenas aceitou a troca com a boca cheia de palavras e o coração fora do corpo. Como podia ainda amá-lo? Simplesmente ainda amava. Amava suas esquicitisses, reclamações, mau humor diário, amava e ponto final.


Quanto tempo até que o tempo faça o seu serviço de cura e esquecimento? Respirou pouco, o ar não cabia mais dentro dela. A dor tinha se alojado ali dentro, a autopiedade, a derrota, a agonia. Amanhã, tudo será como hoje. O que resta aos esquecidos? O que resta quando justiça já não há?




Karla Bardanza




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