QUÍRON

Fotografia de Tina Modotti




Estive com Quíron para reaprender os desígnios esquecidos. Ele estendeu-me sua mão compassivamente e curou-me para curar a si mesmo. Talvez, a grande busca da vida seja a possibilidade de curarmos o outro, labendo as suas feridas como se fossem nossas, simpatizando - no sentido etimológico da palavra- com a sua agonia (existencial) porque já a conhecemos.



Quíron tirou de mim a mesma flecha que envenenou o seu sangue e eu fiquei mais perto dos Deuses, sentindo a imortal dor que é viver porque a vida é a constante necessidade de curarmos-nos de nossas angústias, medos e verdades. Os ritos de passagem abrem as mesmas portas. Ao passarmos por qualquer uma delas, estaremos mais fortes, mais ligados subconscientemente a todos que vivem os mesmos desesperos e atravessam a terceira margem do rio. A vida é uma viagem. A caminhada dói porque sempre inaugura possibilidades de autoconhecimento e compreensão, quebrando conceitos engessados, nos atropelando com uma (in)decente alternativa.



Quíron falou-me que há um preço para estar viva. O pedágio nunca é tão caro.. A paz só chega para quem está preparado para dividí-la. Não sei quando chegará a minha vez de me colocar no lugar do outro novamente e sofrer com a mesma resignação e delicadeza. Enquanto a experiência não chega, limpo o veneno que escorre de minhas veias e me atormenta, procurando manter as lágrimas dentro dos olhos e o meu lado animal sob controle. Quíron está comigo. Nas minhas sombras está toda a minha força.





Karla Bardanza



O centauro Quíron (gr. Χείρων), meio homem e meio cavalo, era filho do titã Cronos e de Fílira, uma das oceânides. Crono uniu-se a Fílira na forma de um cavalo, daí a forma híbrida do filho. Quíron não tinha a natureza selvagem dos outros centauros, filhos de Íxion e da nuvem; ele era, na verdade, o mais sábio e o mais justo dos centauros (Il.11.831). Apesar de ser meio-irmão de Zeus, Posídon e Hades, vivia entre os mortais, em numa gruta do monte Pélion, na Tessália. Os conhecimentos médicos foram transmitidos aos mortais por seu intermédio.
Grande caçador, conhecedor de música, de plantas medicinais, de cirurgia e de outros conhecimentos práticos prezados pelos antigos, Quíron era amigo dos heróis Peleu, a quem salvou certa vez da fúria dos outros centauros, e de Héracles. Foi o educador de vários outros heróis, entre eles Aristeu e seu filho Acteon, Aquiles, filho de Peleu, Asclépio, filho de Apolo, e Jasão, o futuro líder dos argonautas. Pode-se dizer que ele é o mais antigo professor da mitologia grega.
Consta que era casado com Caricló, possivelmente uma oceânide. Os principais mitos de que participa, além de suas atividades de professor, são o do casamento de Peleu e Tétis, o da visita dos argonautas (A.R. 1.554), e o da sua "morte".
O mito de seu desaparecimento ou morte é muito interessante. Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha de Héracles, durante uma de suas escaramuças contra os outros centauros, ou especificamente na ocasião da visita do herói a Folo. A flecha, embebida no veneno da Hidra de Lerna, produzia feridas incuráveis, e o centauro sofria dores horríveis, que nem seus conhecimentos médicos eram capazes de mitigar[. Desesperado, Quíron renunciou então à sua imortalidade, conseguiu morrer e escapou do terrível sofrimento. Zeus colocou-o, então, entre as constelações (Sagittarius).



Um dia, ao tentar salvar um centauro que teria sido ferido por uma flecha envenenada, Quíron acabou por também se ferir e se envenenar. Ele conseguiu curar o centauro, mas não a si próprio, e o seu sofrimento tornou-se bastante grande. Mas Quíron era imortal, de modo que estava fadado a sofrer para sempre. Sabendo, então, que Prometeu estava acorrentado por ter roubado o fogo para a Humanidade, Quíron decidiu participar de uma troca: a liberdade de Prometeu por sua imortalidade. Dessa forma, teria a chance de se livrar do seu infortúnio de sofrer eternamente pela ferida incurável, transformando-se na constelação do Centauro.

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