Enquanto me abraço



Não tenho sonhado ultimamente. Deve ser falta de tempo ou disposição. Quando estou de olhos fechados, as coisas estão em preto e branco. É estranho não esperar acontecimentos e surpreender-me pouco. Não sei bem se esta fase é a consequência do cansaço ou do excesso de alguma coisa entre a sabedoria e racionalização. Sempre gostei de viver transbordando, da paixão escorrendo pelos poros. Agora, estou contida em minhas próprias limitações e ressecamento. Meus pés estão tão fincados no chão que tenho notado minhas enormes raízes. Minha pele está séria e entrando em lenta erosão. Minhas mãos nem procuram mais o inatingível. Viver tem sido um ato estranho ultimamente. A vida não deixou de ser maravilhosa nenhum intante. Sou eu que não me sinto mais assim. Não tenho medo de me perder nesta seriedade, inexatidão e estranhamento. Tenho medo é de perder a poesia, de acordar de repente e não tê-la mais me esperando nas pontas dos dedos e nas curvas do coração. A rotina nos engaveta e tenho a impressão de que me despertenço toda segunda-feira. O calendário sufoca-me com todos aqueles números e as coisas sempre iguais.

 Não tenho planos, estratégias ou dicas para uma vida melhor. Os livros de autoajuda não me ajudam e eu creio que o ideal é viver à la Zeca Pagodinho, deixando a vida me levar. Vou olhando para frente, esquecendo as coisas lentamente, criando novas saudades, refazendo caminhos, vivendo mais perto de mim.Não sei se a vida vai estar mais incrível amanhã. Certezas não tenho nenhuma. Daquilo que aprendi, pouco sei também. "Um dia de cada vez" diz a pulseira que vi no braço de minha filha. Que seja assim então. O hoje vai acabar em duas horas para o amanhã começar. Estou respirando e tudo torna-se possível dentro do real. Vou fazer um favor a mim mesma: esquecerei que isso tem nome de vida. Será mais reconfortante acordar sem a lembrança de que preciso dar conta desse momento intensamente. O outro nome da sabedoria deve ser paz. Encaixo-me nesta alternativa com gratidão.O que vale mesmo é a vida aqui dentro, é o coração batendo seja por que motivo for, é o amor guardado nas estranhas enquanto me abraço mesmo quando sinto tão pouco, tão absolutamente pouco.


Karla Bardanza



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