Fumando a dor



Fumava a dor com tanta classe que já quase esquecia quem era. Nunca soubera como ser uma mulher dada a delicadezas. Tinha nascido com imensas dificuldades para encontrar adjetivos. 
Eles deveriam se esconder embaixo de cama feito criança malcriada. Era bem melhor em matemática.Ah!...os números das perdas...as senhas inválidas do sucesso...as contas caindo gaveta abaixo...

A fumaça desenhava rostos enterrados, camas divididas, momentos poucos e roucos, vantagens de meia hora. Não queria se culpar tampouco achar culpados. Era ré confessa. Por que dividir a bagagem de mão? De jeito nenhum! Era mulher o suficiente para saber que nasceu errada. 

Acendeu um cigarro e outro e outro até não ter mais o que pôr entre os lábios. Foi ai que desatou a chorar com um cafézinho na mão, roendo as unhas, arrancando o resto de esmalte azul. Quando já não podia mais consigo mesma, colocou o polegar na boca e começou a chupar. Estava de castigo no quarto escuro novamente. "Teu lugar é ai, sua enjoadinha! Menina chata, manhosa. Tomará você crescer logo e cair no mundo.Tomará. Ai...tô cansada de você e desse teu pai fraco e imprestável!"

Aqueles fantasmas nunca a abandonaram. Era estranho reencontrar com eles mais uma vez. Encolheu-se assombrada. Eles nunca a perdoaram por ter um coração tão pequeno e frágil.


Karla Bardanza













Copyright©KarlaBardanza2012 Photobucket

0 comentários:

Postar um comentário

Pode falar agora!