Para sentir saudade

Olga Dronova



 Para sentir saudade precisei de coragem e não foi fácil ser forte. E não foi fácil encarar que nada resta além de um punhado de memórias sujas de coisas boas e coisas tristes, de palavras que ficaram no ar quando a gente perde para sempre o que se teve pela metade ou o que nunca se teve mesmo.

Para sentir saudade precisei ser uma outra eu mesma com açúcar. Meus olhos ficaram doces, minhas emoções ficaram santas. Despertei para o meu coração inútil e cansado. Não tenho vergonha de confessar que o quarto ficou pequeno para ouvir a mesma música que me ama e abomina milhares de vezes até que nada fizesse mais sentido, nem mesmo aquela canção.

Para sentir saudade precisei sentir-me ultrajada pelo ontem, quando eu nem queria saber de hoje. O ontem sempre nos ofende com aquelas recordações esquisitas de felicidade, como se realmente tivéssemos sido felizes. Porém mesmo quando não fomos, preferimos acreditar que era bem melhor do que temos agora.

Para sentir saudade precisei desengavetar a mesma dor e descongelar as lágrimas. Sim, eu chorei com avidez, com remorso, com vontade de esquecer, com um bilhete suicida nas mãos pronto para me representar. 

Para sentir saudade, não precisei de muito, de pouco, de nada. Precisei apenas de amar. E não foi nada fácil amar. E não é nada fácil desamar. 

Para sentir saudade precisei sentir tudo novamente e eu senti que ainda não estou pronta, que ainda estou tola e tonta. 

Para sentir saudade precisei morrer elegantamente na ponta da minha própria espada.


Karla Bardanza



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