Quase Capitu

Mike Batenev



 Até que eu procurei por elas. Mas, não consegui achá-las. Alguém deveria me perdir permissão para guardar as minhas palavras. Elas abandonaram-me e eu até tentei manter-me calma, balbuciar algumas coisas importantes como se houvesse algo mais importante do que aquilo, do que estar ali. O que são as emoções? O que é isso que faz a gente colocar a mão no peito, e esconder o coração só para que ninguém possa escutar o barulho esquisito que ele faz quando o que jurávamos acabado não acabou nem um minuto? Limitei-me a olhar e ouvir. Às vezes, é bom ouvir e ver. Acho que a palavra correta seria contemplar porque tudo que a gente não pode ter, a gente contempla e se contenta porque não tem nenhum 0800 para reclamar. Então, ficamos com os olhos oblíquos iguaizinhos aos de Capitu olhando o outro, percebendo coisas que não queremos perceber porque aquilo faz um mal danado por ser bom demais.Essa presença do outro é sempre assustadora quando é reveladora e inquientante, quando dissolve o instante em estrelas e a gente não sabe se resguardar do perigo de ser apenas nós mesmos.E nesses momentos de (des)encontros, a gente entende que estamos espreitando o outro para desvendar os seus enigmas e nos sentimos tão pequenos para ultrapassar esse nosso imaginário.

Ser uma observadora quase comprometida é um desafio. Primeiro porque quero os detalhes que não são observáveis e segundo porque diante do que sentimos, a gente apenas consegue ver o que é perfeito. Confesso que fiquei me sentindo uma Capitu pós-moderna pendurada entre o real e o que nunca será. Mesmo assim, dei minhas contribuições monossilábicas a um discurso que é sempre do outro. Estava ocupada demais dissimulando uma calma estranha. Quando tudo terminou, não terminou mas os meus olhos de ressaca tinham bebido o suficiente para ir embora e esquecer o que nunca foi compartilhado. Foi assim que descobri a minha mais nova verdade: a pior mentira é aquela que você conta para si mesmo e finge acreditar. Porém chega um dia que as palavras voam da boca e nada resta. E nada resta a não ser a tola realidade de encarar o teu próprio coração.

Karla Bardanza



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