Corpos sem amortecedores


 

Essa insensatez é natural após às seis. O agora mancha camisas de batom e perfuma peles com memórias de flor e alguma exaustão. Não há arrependimento porque toda loucura há de ser perdoada. Você mergulha fundo no momento e nada naquela boca que vem fantasiando por tempo indeterminado: o campo é minado, mas é bom explodir a vida de vez em quando para variar.

O rito é rápido e sem grandes direitos depois das portas abertas. Vale a pena. Você bem sabe que vai levar pouco disso tudo. Não tem mãos para carregar mais do que o desejo te pensou. Algumas horas suaves e ferozes bastam. Depois é só dar um passo para dentro de si mesmo e seguir em frente.

Quando chega em casa, tudo está como você deixou. Você já esqueceu quase completamente o que houve. O que houve mesmo? Toma um banhozinho e desaba na cama um pouco cansado, um pouco cego e pensa calmamente: " se alguém falar alguma coisa, eu refuto, eu renego, eu nego".
Porém você e eu sabemos perfeitamente que algumas coisas nunca terminam quando terminam. Nada é tão simples assim mesmo quando o início já começou no fim. Então, caro mio, cuidado com a rota e a reta, os risos e as rosas, os sabores e os saberes. A gente nunca sai incólume dos delírios e dos nossos obscuros objetos de prazer. A vida está sempre esperando uma derrapada na curva: nem todos os corpos possuem amortecedores. Alguns acidentes de percurso podem ser insaciavelmente cruéis.


Karla Bardanza









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